OPINIÃO

Entre a Doação, a Fé e o Comércio: O Destino do Patrimônio

  

O debate sobre a Praça da Igreja em nossa cidade transcendeu a simples disputa por metros quadrados; ele agora toca em um ponto nevrálgico da confiança entre o cidadão e as instituições. Um novo e grave detalhe emerge para colocar sob uma lupa ética a intenção de transformar aquele espaço em um centro comercial: a origem daquela terra. Se a propriedade foi, em tempos idos, doada ao patrimônio público e este, por sua vez, a repassou à instituição religiosa, estamos diante de um compromisso que vai muito além de escritórios de advocacia. Estamos diante de uma quebra de finalidade que fere o espírito da generosidade original.

No pensamento conservador, a propriedade privada é sagrada. No entanto, a legitimidade dessa posse se sustenta na função e na história que a cercam. Quando um bem sai do patrimônio comum para o domínio de uma instituição de fé, o entendimento tácito, e muitas vezes explícito, é de que aquele solo servirá ao bem espiritual e à convivência da comunidade. Transformar um símbolo de setenta anos em um estacionamento ou em "puxadinhos" comerciais é ignorar a vontade de quem, no passado, abriu mão de um bem pessoal em prol do coletivo. É, em última análise, mercantilizar a confiança pública.

A distinção entre público e privado, que defendemos com vigor, torna-se turva quando o que foi doado para ser "sagrado" ou "comunitário" passa a ser gerido com a lógica fria do lucro imobiliário. O direito de modificar uma propriedade existe, mas ele esbarra em limites morais quando a modificação desfigura a identidade de um povo. Já assistimos ao centro catequético ser fatiado em salas comerciais. Ver agora a praça central, o último bastião de convivência ao redor do templo, ser ameaçada por um "camelódromo de luxo" é um sinal de alerta para todos os que prezam pelas nossas raízes.

A liberdade de expressão nos obriga a dizer o que muitos pensam em silêncio: a cidade não é um tabuleiro de Banco Imobiliário onde se joga com a memória alheia. Se a Igreja recebeu o terreno do Poder Público, ela carrega o ônus de ser a guardiã de um legado, não apenas a proprietária de um ativo financeiro. O desenvolvimento é necessário, mas o progresso que atropela a história é, na verdade, uma forma de decadência.

O Jornal Cabeço Negro reafirma sua crença na liberdade e na propriedade, mas lembra que o conservadorismo defende a preservação do que é permanente. Uma praça é um elo entre gerações. Destruí-la em nome de conveniências comerciais momentâneas é um erro que as futuras gerações não perdoarão. O que nasceu de uma doação para a comunidade deve, por justiça e respeito aos antepassados, permanecer servindo à alma da cidade, e não apenas ao bolso de poucos. A lei pode até permitir a obra, mas a história cobrará o preço da descaracterização de nossa própria identidade.