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Costa da Lagoa: a comunidade isolada de Florianópolis que une tradição e busca por paz

  • Foto: Patrick Rodrigues - Comunidade isolada de Florianópolis reúne de famílias tradicionais a moradores em busca de paz. Seu Dico é conhecido na comunidade

Costa da Lagoa, em Florianópolis, une famílias tradicionais como Seu Dico, mestre pescador e artesão, a novos moradores como fotógrafa Cristina, atraídos pela paz sem estradas. Histórias de pesca, canoas centenárias e desafios de acesso revelam o encanto e perrengues dessa comunidade acessível só por barco ou trilha.

A Costa da Lagoa, em Florianópolis, atrai quem sonha com uma vida mais simples e conectada à natureza. Mas será que o isolamento compensa os desafios? Neste artigo, exploramos histórias reais de moradores antigos e novos.

A herança da pesca artesanal com Seu Dico

Nildo Nicodemos Frutuoso, o Seu Dico, de 65 anos, é um dos pilares da Costa da Lagoa. Filho de Dona Zara, mãe de 21 filhos, ele carrega a tradição da pesca artesanal desde o bisavô. Hoje aposentado, pesca sardinha, camarão, siri e carapeva, mas admite: "Só da pesca já não tem mais como sobreviver".

Nos anos 80, aos 20 anos, Seu Dico pescava até 460 quilos de peixe de tarrafa em uma manhã. Agora, a concorrência cresceu com a população e redes modernas, que chegam prontas em um dia – diferente dos meses ou anos de antigamente. "Todo mundo quer chegar na frente onde tá o peixe, mas a lagoa é pra todos", filosofa ele, em entrevista à NSC Total.

Além da pesca, Seu Dico constrói miniaturas de canoas, de 3 cm a 1,5 m, em garapuvu – madeira protegida, usada só se caída naturalmente. Reconhecido como Mestre da Cultura Popular de Santa Catarina pela Fundação Catarinense de Cultura (FCC), ele expõe no Mercado Público de Florianópolis. Uma relíquia de 120 anos, do bisavô, ainda vela em competições. "Eu comprei ela de volta não pela canoa, mas pela história", conta.

Do passado sem eletricidade à rotina de hoje

Imagine uma infância sem água encanada ou luz elétrica. Seu Dico relembra: a mãe levava roupa ao Casarão da Dona Lóquinha para lavar e buscar água. Fogão a lenha aceso 24 horas, peixe fresco ou seco, plantações de feijão e batata. Carne? Só no Natal, Ano Novo ou Páscoa, trazida a cavalo de Ratones, anotada em caderno. Transporte: 2 a 3 horas de canoa a remo.

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Hoje, melhorias como mais horários de barco, táxi náutico e heliponto facilitam a vida. Mas o senso de comunidade enfraqueceu, nota ele.

O encanto da paz para moradores raiz

Professora Fabiana Andrade, do EBM Costa da Lagoa, chega ao trabalho em 5 minutos a pé. "Sem estrada, a gente tem paz: crianças brincam à noite, sem violência ou drogas", diz. Lá, quatro famílias raiz se entrelaçam por casamentos. Dona Neia, do restaurante Paraíso da Neia (ponto 18), sai de barco uma vez por semana, mas ama o pilates, grupo de idosos e encontros locais. "Gosto de sair, mas pra morar em outro lugar, não."

Fabiana destaca o laço familiar: "A gente se acolhe muito no outro. Esse amorosidade faz a diferença."

Novos moradores atraídos pela natureza

Nem todos nasceram lá. Fotógrafa Cristina de Souza, de Guarujá (SP), mudou-se em 2017, grávida do primeiro filho. Após um freela em 2010, pensou: "Eu vou morar aqui um dia". Seus vídeos no TikTok sobre a rotina – de 170 a 14,8 mil seguidores, 2,5 milhões de views – respondem dúvidas de curiosos.

Positivos: silêncio, natureza, escola que preserva cultura. "Morar aqui complementa meu trabalho de fotografia natural", afirma. Negativos: barcos escassos (das 6h30 ou 21h30), até 4 horas para serviços básicos como escola ou posto de saúde. Críticas na internet? Ela releva: "A rede é louca, mas é legal."

Seus filhos, "manequinhos", crescem conectados à terra. Cristina critica a gestão municipal: foco no turismo, pouco em preservação ambiental e cultural.

Por que a Costa da Lagoa fascina tanto?

Essa joia escondida na Ilha da Magia mistura passado e presente. Famílias tradicionais mantêm raízes, enquanto forasteiros buscam refúgio do caos urbano. Mas o isolamento cobra seu preço: e você, trocaria o trânsito por barco e trilha? A série especial da NSC Total revela mais em seis reportagens sobre histórias, biodiversidade e rotina.

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