PASSANDO A LIMPO

O contraste entre a eficiência do interior e a letargia da capital

    

"Ser conservador não é apenas guardar o passado, mas impedir que a inércia do presente destrua o que o trabalho das gerações anteriores construiu." Ailton Carlos Coelho

 Iniciamos a análise desta semana observando um cenário de dualidade gritante em Santa Catarina. De um lado, vemos o Vale Europeu mantendo sua tradição de seriedade administrativa, com transições de governo que respeitam o planejamento e o cidadão. Do outro, deparamo-nos com uma Capital que parece refém de uma burocracia que imobiliza obras vitais e uma gestão estadual que tenta equilibrar as contas do magistério com uma régua que não alcança a realidade do mercado. É preciso coragem para admitir que o Estado, muitas vezes, perde-se em discussões de gabinete enquanto as pontes sofrem com a maresia e os professores com a inflação.

Antes de mergulharmos nos detalhes da Alesc e nos números da economia, um aviso paroquial: nesta edição, não dedicarei espaço para debater o caso da Praça da Igreja em Apiúna. O assunto é complexo e a posição institucional deste jornal já está muito bem fundamentada no editorial da página 2. Quem busca clareza sobre o patrimônio histórico e a moralidade administrativa, encontrará ali os argumentos necessários. Nosso foco aqui hoje recai sobre o que ferve no centro do poder catarinense e o que isso reflete no bolso do contribuinte.

Magistério: a matemática da desvalorização disfarçada

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em sessão extraordinária na terça-feira, 31, a Medida Provisória que altera a tabela salarial dos professores estaduais. No entanto, o que o governo de Jorginho Mello vende como "reorganização de carreira" é, na verdade, um ajuste que mal repõe o básico. Estamos falando de um reajuste médio de 4,9% para 2026, um índice que vergonhosamente fica abaixo do aumento do piso nacional do magistério, que é de 5,4%.

O deputado Fabiano da Luz, embora de um campo ideológico oposto ao nosso, trouxe dados técnicos que não podem ser ignorados: na prática, quem está no início da jornada pedagógica receberá menos de 2% de reajuste. É um acinte. Professores com ensino médio terão um ganho pífio de 0,67%. Como podemos falar em valorizar o futuro do Estado se não garantimos o presente de quem educa? Esse percentual não cobre sequer a inflação de 2025, que fechou em 4,26%. Ou seja, o professor catarinense está pagando para trabalhar.

O conservadorismo defende o mérito, mas não há mérito que resista à corrosão salarial. Desde 2021, os reajustes do piso foram absorvidos por complementos salariais, mantendo o contracheque no mesmo lugar enquanto o supermercado fica mais caro. As perdas inflacionárias desde outubro de 2021 chegam a 25,83%. Se o Estado fosse gerido com a seriedade de uma empresa privada, o salário mínimo de um professor não seria inferior a R$6.281,50. Hoje, o valor para o nível inicial é de apenas R$5.140,00.

Infraestrutura: a burocracia que ameaça o elo da capital

Enquanto os salários patinam, a infraestrutura física de Santa Catarina dá sinais de fadiga por omissão. O deputado Mário Motta (PSD) foi preciso ao cobrar urgência nas obras das pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos. É o "quintal de casa" da administração estadual que pede socorro. É inadmissível que, desde 2019, o Estado saiba que 12 blocos de sustentação precisam de reforço estrutural e o processo continue empacado em "fase final de aprovação de orçamento".

O adiamento sistemático dessas obras é um convite ao desperdício de dinheiro público. A corrosão em ambiente marítimo é agressiva e não respeita os prazos dilatados da Secretaria de Infraestrutura. O que poderia ter sido resolvido com uma manutenção preventiva há cinco anos, agora exigirá recursos muito mais vultosos por causa do desgaste acentuado. Se o governo não demonstra capacidade de gerir o orçamento para reformar as pontes que ligam a capital ao continente, que sinal ele passa para o cidadão do interior?

Ascurra: o exemplo do Vale que chega ao Centro Administrativo

Em um contraponto refrescante à letargia da Capital, o Médio Vale nos brindou com uma demonstração de maturidade política que culminou em uma mudança estratégica no primeiro escalão do Estado. Na última segunda-feira, 30 de março, Arão Josino renunciou ao cargo de prefeito de Ascurra para assumir um desafio maior. A transição, marcada por um Teatro do Colégio São Paulo lotado e emocionado, passou o bastão para Soires Trentini, garantindo a continuidade de um projeto que transformou a cidade nos últimos cinco anos e três meses.

Na quarta-feira, 1º de abril, o governador Jorginho Mello oficializou a posse de Arão Josino como o novo Secretário de Estado do Planejamento. Josino, que substitui Fabrício Oliveira, carrega na bagagem a eficiência municipalista do Vale Europeu que tanta falta faz nos gabinetes da Ilha. Reeleito em 2024 com ampla aprovação, ele traz a experiência de quem presidiu a AMVE e a FECAM, conhecendo as dores de quem está na ponta do serviço público.

O governador foi enfático ao justificar a escolha: "O Arão é um jovem preparado, que quer transformar e avançar. Ele já esteve no executivo de Ascurra, o que lhe deu amadurecimento. Ele vem para o governo para liderar com zelo, responsabilidade e credibilidade". Por sua vez, o novo secretário demonstrou entender a urgência do cargo, afirmando que "para que o futuro chegue, precisamos agir de forma imediata". Esperamos que essa mentalidade executora, lapidada no Médio Vale, contamine positivamente a burocracia estadual.

Enquanto Arão leva sua experiência para Florianópolis, Ascurra segue seu ritmo de reconhecimento. No próximo dia 7, aniversário do município, o Legislativo local entregará nove títulos de Cidadão Honorário. Honrar o mérito e manter a casa em ordem são valores que o Vale Europeu exporta hoje para o comando do Estado.

Economia: a força do trabalho contra o peso do IPCA

No campo econômico, Santa Catarina continua a carregar o Brasil nas costas. O presidente da Fecomércio-SC, Hélio Dagnoni, trouxe dados que mostram a resiliência do nosso empresariado: o setor de serviços e comércio gerou mais de 11 mil novas vagas em fevereiro. É o setor produtivo garantindo que o Estado tenha a menor taxa de desemprego do país.

Contudo, a nuvem negra da inflação volta a pairar. O Boletim Focus elevou a previsão do IPCA para 4,31% este ano. Transportes e educação puxam a alta, e a pressão externa pode piorar esse cenário. O conservador sabe que a inflação é o imposto mais injusto, pois tritura o poder de compra da família de classe média. Sem uma política fiscal austera, o Banco Central será obrigado a manter juros altos, o que trava o investimento e encarece o crédito para quem quer empreender.

O imperativo da gestão sobre a política de gabinete

Concluímos esta edição com uma certeza: Santa Catarina não pode ser refém da inércia burocrática. Seja no cuidado com as pontes da capital, na valorização honesta dos nossos professores ou na manutenção de um ambiente econômico favorável, o governo precisa agir com a agilidade que o setor privado nos ensina todos os dias.

A chegada de nomes testados na gestão municipal ao núcleo do governo estadual é um sinal de esperança. O sucesso administrativo de Ascurra prova que é possível fazer política com "P" maiúsculo, focada em resultados e não apenas em sobrevivência eleitoral. Seguiremos passando a limpo cada decisão, pois o cidadão catarinense não aceita o "mais ou menos" como resposta para os desafios de um Estado que produz tanto.