PASSANDO A LIMPO

Entre o descaso do Estado e a imprudência ao volante, até quando assistiremos às tragédias anunciadas?

  

"A responsabilidade individual é o único sustentáculo real da ordem e da segurança em uma sociedade livre; quando o Estado falha na infraestrutura e o cidadão peca na prudência, o preço é pago em vidas." Ailton Carlos Coelho

A nossa região do Vale Europeu assiste, dia após dia, a um espetáculo de horror que parece não ter fim. O trecho da BR-470 que corta as áreas urbanas de Ascurra e Apiúna, estendendo-se até Ibirama, transformou-se em um corredor de tragédias anunciadas. Entre a omissão histórica do Estado na manutenção e sinalização das rodovias e a latente imprudência que impera ao volante, o resultado é a contabilidade macabra de famílias despedaçadas. O gravíssimo acidente ocorrido na madrugada da última quarta-feira, 20 de maio, no quilômetro 93, em Apiúna, é o retrato mais recente e doloroso de uma realidade que exige respostas duras e imediatas. Não podemos mais tratar como fatalidade o que decorre da negligência institucional e da falta de responsabilidade individual.

Precisamos falar abertamente sobre o que está acontecendo na BR-470. O choque violento entre uma carreta, um Chevrolet Celta e um Honda Fit, ocorrido por volta de 1h50 da manhã no bairro São Luiz, parou a região. O cenário encontrado pelas equipes de resgate parecia uma zona de guerra: uma condutora presa às ferragens no Celta, o motorista do Fit gravemente ferido e, lamentavelmente, o passageiro do mesmo veículo já sem vida, com sinais incompatíveis com a sobrevivência antes mesmo de qualquer chance de socorro.

Um fato como esse nos obriga a levantar questionamentos incômodos. Até quando as áreas urbanas das nossas cidades vão sofrer com a falta de sinalização horizontal adequada? Quem trafega por esse trecho sabe que a escuridão e a pintura apagada das pistas transformam a direção em um jogo de azar. O governo federal arrasta há anos as obras de duplicação e melhorias, entregando migalhas de asfalto enquanto recolhe impostos de uma das regiões que mais produz riqueza no país. É uma vergonha o descaso com o povo catarinense.

Por outro lado, o conservadorismo nos ensina que a culpa não pode ser terceirizada eternamente para o Estado. Existe uma crise moral e de autoridade nas estradas. A imprudência, o excesso de velocidade e o desrespeito às leis de trânsito são escolhas conscientes. O motorista que abusa da velocidade em um trecho urbano e sinuoso assume o risco de matar. A liberdade de ir e vir exige, obrigatoriamente, a responsabilidade pelas próprias ações. A impunidade daqueles que transformam rodovias em pistas de corrida só alimenta esse ciclo de mortes.

Se há um alento em meio ao caos, este vem do trabalho exemplar das nossas forças de segurança e salvamento. A operação de resgate na madrugada de quarta-feira foi uma demonstração de eficiência técnica e dedicação. O esforço conjunto dos Bombeiros Voluntários de Ascurra, Apiúna, Rodeio que realizaram o desencarceramento preciso da condutora, do SAMU de Ibirama, da Unidade de Suporte Avançado (USA) de Rio do Sul, da Polícia Rodoviária Federal e do Instituto Geral de Perícias (IGP) evitou que o saldo de horror fosse ainda maior.

Esses profissionais e voluntários doam suas vidas para salvar a dos outros, muitas vezes lidando com a precariedade de recursos e a pressão psicológica de cenários devastadores. O trabalho dos bombeiros voluntários na nossa região é o mais puro exemplo de associativismo e força comunitária, valores que defendemos e que suprem as recorrentes lacunas deixadas pelo poder público.

No entanto, a eficiência do socorro não anula a necessidade urgente de prevenção. Apiúna e Ascurra não podem continuar reféns do medo ao cruzar a rodovia que rasga seus municípios. Exigimos sinalização clara, iluminação digna nas áreas urbanas e, acima de tudo, punição rigorosa para a irresponsabilidade ao volante. Que a memória da vítima fatal deste último acidente não seja apenas mais um número em uma estatística fria, mas um basta definitivo para a frouxidão com que a vida humana tem sido tratada na BR-470.