Mulheres, além do salto

Sem perder a essência

  


As mulheres possuem uma capacidade admirável de cuidar. Cuidam da família, do trabalho, dos filhos, dos pais, dos amigos, da comunidade e de inúmeras responsabilidades que surgem ao longo da vida. Muitas vezes, fazem isso com dedicação, amor e um profundo senso de compromisso. Mas existe uma reflexão que considero importante: em meio a tantas responsabilidades, quem está cuidando da mulher?
Ao longo das conversas que tenho com outras mulheres, percebo que muitas não estão apenas cansadas. Estão desconectadas de si mesmas. Em algum momento da caminhada, passaram a atender tantas demandas externas que deixaram de perceber suas próprias necessidades, seus sonhos, suas vontades e até mesmo sua identidade.
A mulher continua cumprindo suas responsabilidades, trabalhando, cuidando da família, resolvendo problemas e atendendo expectativas. Mas, aos poucos, começa a viver mais em função daquilo que os outros precisam do que daquilo que realmente faz sentido para ela. Quando isso acontece, surge um risco que vai além da sobrecarga: o risco de perder a essência.
Vivemos em uma sociedade cheia de expectativas. Existe expectativa sobre a profissional que devemos ser, sobre a mãe que devemos ser, sobre a esposa que devemos ser, sobre a aparência que devemos ter e até sobre as escolhas que devemos fazer. Se não tivermos clareza sobre quem somos, corremos o risco de construir uma vida baseada apenas nas expectativas dos outros.
Passamos a viver de fora para dentro. Tomamos decisões para agradar, aceitamos situações para evitar conflitos e silenciamos opiniões para sermos aceitas. Sem perceber, vamos nos afastando da nossa própria identidade e permitindo que as expectativas externas tenham mais influência sobre nossas escolhas do que nossos valores e convicções.
Claro que ouvir conselhos é importante. Todos nós aprendemos através das experiências de outras pessoas. Existem momentos em que uma orientação, uma palavra de incentivo ou até uma correção podem nos ajudar a enxergar situações que sozinhas talvez não perceberíamos. Mas existe uma diferença entre ouvir conselhos e entregar aos outros a responsabilidade pelas nossas decisões.
Nem tudo o que faz sentido para uma pessoa fará sentido para outra. Cada mulher possui sua história, seus valores, seus sonhos, suas circunstâncias e seus desafios. Por isso, ouvir é importante. Refletir também. Mas, ao final, é preciso desenvolver a capacidade de compreender aquilo que realmente está alinhado com quem você é e com a vida que deseja construir.
Acredito que uma das maiores responsabilidades da mulher não é apenas cuidar das pessoas ao seu redor. É também preservar quem ela é. Uma mulher pode ser dedicada à família, exercer sua profissão com excelência, servir, ajudar, liderar e contribuir para a vida de outras pessoas sem abrir mão da própria essência. O problema não está nas responsabilidades que assume, mas no momento em que elas passam a ocupar tanto espaço que ela deixa de reconhecer a própria voz.
Em minhas palestras e conversas com outras mulheres, existe uma situação que se repete com frequência. Quando pergunto o que elas gostam de fazer, quais são seus sonhos ou o que desejam para os próximos anos, muitas demoram para responder. Não porque não sejam capazes, mas porque passaram tanto tempo cuidando de tudo e de todos que deixaram de olhar para si mesmas.
Talvez seja importante fazer algumas perguntas a si mesma: quem você é além das suas responsabilidades? O que faz seus olhos brilharem? Quais sonhos continuam vivos dentro de você? E quais escolhas realmente refletem seus valores?
Essas perguntas não são egoísmo. São consciência. Porque quando uma mulher se conhece, ela consegue tomar decisões mais alinhadas com aquilo que acredita. Quando preserva sua identidade, consegue se posicionar com mais segurança. E quando permanece fiel à própria essência, constrói uma vida com mais autenticidade.
Isso não significa viver pensando apenas em si mesma. Significa não desaparecer dentro das necessidades dos outros. Ao longo da minha própria caminhada, também aprendi que nem tudo depende de mim. Existem momentos em que precisamos confiar, dividir responsabilidades e permitir que outras pessoas contribuam. Mas existe algo que não pode ser delegado: a responsabilidade de permanecer conectada com quem somos.
Cuidar dos outros é importante. Contribuir é importante. Assumir responsabilidades é importante. Mas nenhuma dessas coisas deve acontecer ao custo da sua identidade. Porque quando uma mulher perde a conexão com sua essência, perde também parte da sua força.
E talvez uma das formas mais bonitas de autocuidado seja justamente essa: continuar crescendo, servindo, amando e contribuindo sem deixar de ser quem você é.
Seguiremos juntas aqui na coluna Mulheres, além do salto.
Até a próxima.
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